Mulheres motociclistas

Elas ganham espaço e respeito sobre duas rodas nas ruas e nas pistas

woman-695451_640O pelotão feminino avança e conquista cada vez mais território. Se antes eram figuras raras sobre duas rodas no trânsito dos grandes centros urbanos, hoje é comum encontrar-se com elas nos cruzamentos. Atualmente, de cada quatro motos vendidas, uma é levada por mãos femininas. Em 2010, foram expedidas no país mais de 1,5 milhão de habilitações femininas para pilotar motocicletas, número próximo do 1,milhão de motos vendidas.

Mesmo considerando que hoje, além do prazer de pilotar, questões econômicas e a agilidade no trânsito são as principais razões que levam as mulheres a adquirir sua primeira moto, o gosto pelas duas rodas quase sempre é herdado do pai, de um irmão mais velho ou de algum parente próximo.

Bruna Carniel é um exemplo clássico dessa “herança genética” que as leva às duas rodas. A paixão dessa paulistana de 27 anos começou na infância, quando o tio a colocava em cima da moto para fazer pose. Bruna trabalha no departamento de recursos humanos de uma fábrica de automóveis e usa sua moto para os compromissos cotidianos, mas confessa que sonha acelerar para valer também nas pistas.

Engana-se quem acha que o sonho de Bruna é excentricidade. Com 29 anos, Sabrina Katana acumula títulos no enduro, entre eles o tricampeonato do Enduro da Independência, conquistado em 2011. “Nasci e cresci ao lado das motos. Sou simplesmente apaixonada por elas.”, diz a mineira.

Stefany Serrão tem só 16 anos, mas currículo de gente grande: tem títulos de peso como campeã do Arena Cross, do Paulista de Motocross, do Paulista de Enduro e vice-campeã brasileira de Minicross. Stefany herdou do pai, Denner Serrão, dono de loja motociclística em São Paulo, a paixão pelo esporte. “Moto com certeza é a minha vida, amo mais que tudo”, diz a bela jovem, que vira fera ao afivelar o capacete.

Quem gosta de supermoto seguramente já ouviu falar de Sabrina Paiuta, uma “menina” que acelera como poucos e que, com apenas 17 anos, já é campeã paulista (da categoria S3) e vice-campeã brasileira (S2), deixando muito marmanjo para trás. Neste ano, com o apoio oficial da Kawasaki, Sabrina vai brigar por vitórias na categoria principal da modalidade, a S1. “Quando estou em cima da minha moto, sinto-me como se estivesse no melhor lugar do universo. Consigo me esquecer do mundo e me divertir”, diz ela.

Asfalto, terra, pouco importa. As mulheres estão em todas. Verônica Loureiro era figurinha carimbada nas trilhas da região de Campos do Jordão com sua Yamaha DT 180 no início da década de 1980. Ela foi uma das primeiras mulheres a competir no motociclismo nacional, participando das primeiras provas em 1984, quando tinha 24 anos. Na época, mulheres eram praticamente inexistentes nas competições e não foi fácil para Verônica conseguir seu espaço. Certa vez, em uma classificatória que reunia 40 pilotos, ela havia ficado entre os primeiros 20 classificados para o grid de largada. “Entrava um por vez para escolher o lugar no gate. Escolhi o meu e, de repente, veio um piloto que se classificou depois de mim e quis que eu saísse, pois ele ia largar naquele lugar. Eu falei que havia me classificado melhor e iria largar ali, mas o cara não aceitava de jeito nenhum. O pessoal da Federação teve que intervir para tirá-lo de lá!”

Verônica lembra uma história envolvendo uma das lendas do motociclismo brasileiro, Nivanor Bernardi. “Num enduro de velocidade, eu larguei ao lado do Nivanor. Ele olhou para mim e disse: ‘Vê se não me derruba, hein?’ O primeiro obstáculo era um monte de areia que não dava para enxergar o outro lado. Quando vejo, quem estava caído na minha frente? O Nivanor! Não teve jeito: passei por cima da moto dele. Isso sem falar naqueles pilotos que, quando eram ultrapassados por mim, paravam para ver se havia algo errado com a moto… Perdi alguns amigos por andar melhor que eles”, diz Verônica, entre gargalhadas.
Agora os tempos são outros. Para Stefany Serrão, não há mais espaço para essa discriminação: “Sou tratada como mais um no meio, como qualquer outro piloto profissional”, afirma.

No entanto, há inevitáveis diferenças na hora de competir. “Como não temos a mesma força física dos homens, nós pensamos bastante antes de sair acelerando. Algumas provas de enduro chegam a ter quatro dias de competição e, por isso, preservar o físico é muito importante”, diz Sabrina Katana. “Ser cautelosa e delicada é essencial para um bom resultado nas pistas”, afirma a jovem campeã de supermoto Sabrina Paiuta. Stefany, por sua vez, credita à sensibilidade um dos principais diferenciais em relação aos homens: “Já que não podemos contar tanto com a força física, o jeito é confiar em nosso sexto sentido, que é poderoso!”
Fora das pistas, as estatísticas mostram que as mulheres se envolvem muito menos em acidentes no trânsito.

Agora a pergunta obrigatória: ser fera sobre duas rodas atrai ou afasta pretendentes? “É bom meu parceiro não implicar, senão ele será trocado pela moto!”, diz brincando Sabrina Katana, que está noiva. Já Bruna diz que ouve muitas cantadas quando está andando de moto, mas, para ela – que pilota uma Yamaha Fazer 250 -, a maioria dos homens teria certa “resistência” com mulheres que dominam motos de grande cilindrada.

A jovem Stefany resume bem: “Existem homens e meninos neste mundo. Meninos se intimidam e, como forma de defesa, nunca me apoiam. Agora, só um homem de verdade para ver a grandeza e coragem das mulheres pilotos, e aí fica mais fácil ganhar uns pontinhos!” Está bom ou quer mais?

A Bela e As Feras: A piloto espanhola Elena Rosell participa do Mundial de Moto2

A piloto profissional Elena Rosell é atualmente a mulher que mais longe chegou ao guidão de uma moto de competição. Esta bela e delicada jovem valenciana
de 26 anos, filha de um eletricista apaixonado por motociclismo, fez das motos do circuito internacional de motovelocidade seu estilo 
de vida e sua profissão.
A piloto espanhola já ocupa
 seu espaço entre os melhores motociclistas do mundo e em 2012 disputa a temporada completa do Mundial de Motovelocidade na categoria Moto2, a mais disputada entre as categorias da atualidade
- e a mesma disputada pelo único brasileiro no Mundial, Eric Granado. Na prova de abertura, no Qatar, Elena deixou muitos marmanjos para trás
e terminou em 29 °, ainda na mesma volta do líder Marc Marquez.

Para Elena, sobre uma moto
nas pistas de competição e debaixo do macacão homens e mulheres são absolutamente iguais. “No paddock das corridas, eu me sinto igual a qualquer outro piloto, sou apenas mais um competidor.”
Mas reconhece: “Acredito que muita gente não confia em
minha capacidade de pilotar
em alto nível pelo fato de eu ser mulher. Por outro lado, outros tantos enxergam nisso uma excelente oportunidade. Assim, uma coisa compensa a outra”.

Fonte: Quatro Rodas