Mulheres sobre duas rodas

Ver uma mulher andando de moto torna-se cada vez mais comum nos grandes centros urbanos

“Uma mulher que dirige moto transmite um ar de segurança e independência”

Solange Frazão, apresentadora, fotografada com uma Honda Shadow 750

O aumento de motociclistas mulheres é notório. Basta prestar atenção nas avenidas para encontrar uma mulher sobre duas rodas. “Isso é o máximo. Uma mulher que dirige moto transmite um ar de segurança e independência”, diz a apresentadora Solange Frazão, que desde os 15 anos é fã das duas rodas. “Eu sempre adorei motos e quando uma amiga ganhou uma fiquei louca para ter também”, conta.

Mulheres com a mesma paixão de Solange começam a dar o ar da graça no trânsito com mais frequência.

Para se ter uma ideia, só em dezembro do ano passado, foram emitidas, em todo o Brasil, 2.534.242 carteiras de habilitação de moto para o sexo feminino. Em cinco anos, o crescimento no número de condutoras habilitadas foi de 56,4%. Em 2003, eram 8.495.736 milhões e em 2008 o número saltou para 13.289.655, considerando todas as categorias. Esse número supera até mesmo o da frota circulante no País – 13.084.148. Ou seja, tem mais mulheres habilitadas do que motos rodando por nossas ruas.

“Tinha muita vontade de ter uma moto e consegui, com muito esforço. Estou muito feliz com minha Burgman.”

Rosineide Mendonça de Almeida, estudante, 25 anos Possui uma Suzuki Burgman

A paulista Carmem Zaranello foi a primeira mulher a tirar habilitação de moto (categoria A) no município de Sorocaba, interior de São Paulo. “Me orgulho muito de ter sido pioneira na minha cidade. Durante todo esse tempo, diversas motos já passaram pela minha vida e cada uma delas possui uma história para ser contada”, relembra a motociclista. Mas a motociclista Simone Artacho acredita que a mulher já deveria ter conquistado esse pedacinho do trânsito há mais tempo. “Acho que demorou para que nós adotássemos a moto como meio de locomoção”, afirma. Carolina Souza, 27 anos, acredita que o mercado ainda vai crescer bastante. “Muitas mulheres amam motos, mas ainda têm medo de guiar”, pondera a motociclista desde a adolescência. Um medo, aliás, absolutamente justifi cável já que a moto é mesmo um veículo perigoso e que exige cuidados.

Em 2006, foram registrados 132.993 acidentes, sendo que 46.104 ocorreram no Estado de São Paulo. Esse índice faz com que o DPVAT (mais conhecido como Seguro Obrigatório) seja proporcionalmente maior para motocicletas do que para carros. O valor cobrado em 2008 (R$ 255,13) sofreu um acréscimo de 38,3%, em relação ao preço de 2007 (R$184,54). Mas, apesar do custo, o número de motos que circulam pelos grandes centros urbanos não para de crescer, já que se trata de um veículo rápido e ainda com bom custo/benefício.

“os homens em geral ficam de boca aberta ao ver a coragem dessas mulheres em cima de uma moto”

Mayra Danielle Soares, aux. administrativa, 23 anos Possui uma Suzuki EN 125 Yes

Mayra Danielle Soares é outra garota a vencer o preconceito. Aos 23 anos, foi à luta, conseguiu comprar sua tão sonhada moto e partiu para o trânsito complicado de São Paulo. “Acho o máximo uma mulher pilotando moto, utilizo a minha como locomoção rápida entre a minha casa, o trabalho e a faculdade”, conta.

Hoje existem até empresas de entregas rápidas que estão optando por contratar mulheres. Segundo elas, o cuidado com os produtos é maior quando é entregue por uma motogirl. “Elas são mais dedicadas e mais cuidadosas, além de serem bastante prestativas. Sem falar que têm uma aparência melhor por se preocupar mais com o visual”, diz o proprietário da Penélope Express, Diogo Gonzáles Marques.

Entre os homens ainda há preconceito. “No começo é difícil ver uma garota andando de moto ao seu lado, mas com o tempo acaba sendo normal. Mas até hoje, quando eu encontro uma mulher pilotando, fico olhando para ver se ela anda bem”, explica Willian Alves dos Santos, motoboy há seis anos.

“Quando me casei, levei comigo minha moto. Por minha causa, meu marido tirou habilitação. Logo vieram as filhas as quais eu levava na escolinha, uma no tanque e outra na garupa”

Carmen Zaranello, professora, 53 anos Possui uma BMW 1800

As revendas já estão se adaptando às suas novas e vaidosas clientes. Grandes lojas já enxergaram que a procura por motos não é mais prioritariamente masculina e estão adaptando seu atendimento. Segundo dados da Siri Motos, concessionária Suzuki, de cada 50 unidades vendidas na loja, 30 são de scooter Burgman, e mais da metade delas são adquiridas por mulheres. De acordo com a Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas e Similares), no Brasil, a participação das mulheres na compra de motos já é bem expressiva: mais de uma em cada quatro motos novas vendidas são adquiridas por pessoas do sexo feminino. Também pensando nisso, as lojas de acessórios já estão colocando à disposição equipamentos exclusivos para as mulheres. Já é comum encontrar, por exemplo, capacetes, roupas, capa de chuva, luvas e outros itens na cor rosa.

Para muitas mulheres, pilotar uma moto é a máxima expressão da liberdade. Para outras, é uma necessidade ou uma forma de sustento. Mas, ao que tudo indica, essa é uma mudança de comportamento que veio para ficar. “Não acho que seja moda e sim paixão”, afirma Carolina Souza.

“Quando criança, curtia andar de mobilete e depois fui me apaixonando por todos os estilos de motos“

Simone Artacho, analista de importação, 32 anos, possui uma Yamaha Neo 115

 

ELAS SÃO MOTOGIRLS

Segundo dados da Abram, são cerca de 12.500 profissionais apenas na capital paulista. Em média, cada uma ganha cerca de R$ 1 mil por mês. E, em geral não têm muitas histórias de acidentes para contar, por serem mais cuidadosas no trânsito. “Trabalho há nove anos em cima da minha Juju (apelido de sua motocicleta) e sofri apenas um acidente. Adoro o que faço e tenho orgulho de ser motorgirl”, afirma Valéria Reis. Hoje já é possível achar até mototaxistas profissionais que transportam, em vez de carga e documentos, pessoas. Diferentemente do motoboy, ele transporta exclusivamente passageiros. É como um táxi convencional, mas em vez de carros, o meio a ser utilizado são as motos. Nesse tipo de profissão, o preconceito é ainda maior. Afinal, não são todos os homens que aceitam sentar na garupa de uma garota. Mas isso começa a mudar.